TRE-BA reúne mais de 200 servidoras(es) em curso on-line sobre desinformação
Capacitação ocorreu nesta quarta-feira (20/5) e foi marcada por abordagem sistêmica da desinformação com impacto nas diferentes dimensões da sociedade
Nesta quarta-feira (20/5), o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) promoveu o curso “As Seis Dimensões da Desinformação: Uma Abordagem Sistêmica”, que reuniu mais de 200 servidoras e servidores em uma conferência virtual de capacitação sobre a temática. A ação foi conduzida pela Comissão de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal, em parceria com a Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Servidores (EFAS).
O evento foi aberto pela chefe da EFAS, Rosângela Reis, que destacou a proposta da palestra de aprofundar as discussões sobre o assunto. “Essa palestra propõe uma reflexão sobre a desinformação para além do conceito superficial de fake news, abordando o tema de forma sistêmica e multidimensional. É um debate muito importante, principalmente neste período em que se aproximam as eleições”, afirmou.
O instrutor do curso, Maurílio Luiz Hoffmann da Silva, doutor e mestre em Comunicação, especialista em Programação de Sistemas e técnico judiciário do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC), deu início a apresentação tratando da complexidade da palavra desinformação, sendo o conceito de fake news insuficiente para abordá-la. “Esse termo se popularizou, mas consiste em uma contradição fática do que é notícia. Então, se é 'news' foi apurada e verificada; logo, não tem como ser 'fake'. Outras justificativas são a superficialidade, o uso político da expressão e adequação ao idioma brasileiro”, salientou.
O palestrante seguiu explicando a conceituação de desinformação como um fenômeno sócio-discursivo sistêmico, caracterizado pela produção e circulação intencional de narrativas que utilizam conteúdos fabricados, manipulados ou descontextualizados e buscam objetivos estratégicos, sejam eles políticos, financeiros, sociais ou institucionais.
Maurílio Luiz Hoffmann da Silva propõe um modelo com seis dimensões da desinformação. São elas:
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Material: envolve a linguagem e formato do conteúdo, com características específicas como tom conspiratório, sensacionalismo, apelo à mobilização, estratégias de legitimação e mecanismos de manipulação.
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Social: perpetua-se a ideia de rejeição a um inimigo comum, com narrativas ritualísticas e ambientes digitais fechados imunes à checagem de fatos. A desinformação tem um enredo com papéis definidos, visando o engajamento dos grupos, com heróis, uma missão, uma ajudante e o vilão.
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Tecnológica: dimensão que contraria a ideia das plataformas como atores neutros no processo de desinformação. Elas são consideradas arquiteturas projetadas que moldam o discurso público.
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Econômico-financeira: quando a ideologia vira um modelo de negócios rentável, tornando a desinformação uma indústria onde há engajamento significativo; oportunidade de lucro com vendas; doações; e assinatura de membros.
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Política: a desinformação como arma estratégica para influenciar eleições, mobilizar bases radicais, desestabilizar adversários e desgastar instituições democráticas.
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Institucional: o fenômeno cria um vácuo de credibilidade das fontes tradicionais de conhecimento (ciência, universidades, imprensa e Judiciário) e atinge a confiança pública como um efeito colateral trazendo riscos de ruptura da coesão social e da estabilidade política.
Resposta sistêmica
Silva complementou que a desinformação tem sido usada como arma contra a legitimidade das instituições brasileiras, ameaçando a estabilidade democrática no país. Para o integrante da Justiça eleitoral, o enfrentamento desse cenário exige uma estratégia integrada e contínua. "Combater esse fenômeno exige um esforço multidisciplinar. Não é apenas um problema de comunicação. Precisamos de transparência institucional, parcerias com o jornalismo profissional, agências de checagem e influenciadores digitais. Necessitamos de uma frente que refute diretamente os conteúdos desinformativos para preservar nossa democracia", ressaltou o instrutor.
Reflexões sobre o tema
A servidora Gabriela Pontes, coordenadora de Pessoal e Apoio à Governança (COPES) do Regional, participou da capacitação e considerou a iniciativa como fundamental para fortalecer o corpo funcional do Tribunal, que tem sido afetado por informações falsas sobre o trabalho desenvolvido pela Justiça Eleitoral, sobre o processo de votação, entre outros assuntos. “Exemplos práticos e recentes foram trazidos à tona para melhor identificar casos e, de muitas formas, fazer desenvolver em todos nós a percepção que a desinformação aparece a todo tempo e precisamos falar sobre ela, bem como nos informar”, contou.
O chefe de Cartório da 163ª Zona Eleitoral (Alagoinhas), Juanil Santos Araújo, também marcou presença no curso. O servidor afirmou que as ideias expostas consolidaram a percepção de que as instituições devem se unir para garantir o regime democrático frente às ameaças da desinformação. “É preciso utilizar as mesmas armas com informações precisas para acabar com as mentiras que são propagadas, principalmente quando buscam minar a estrutura democrática”, defendeu.
Pra todos verem: Captura de tela de uma reunião virtual. Em destaque, ao centro, aparece um homem de barba e óculos, usando camisa clara e fones de ouvido. À direita da tela, há várias janelas menores com participantes da videoconferência com a câmera ligada.